Sexta-feira, 17h42.
O cliente acabou de aprovar a diagramação que você fez do miolo de um livro — depois de dezenas de pedidos de alterações e inúmeros ciclos de provas — o arquivo que precisa ir para a gráfica ainda naquela tarde, já que vai rodar no final de semana.
Depois de gerar o PDF e enquanto dá uma última conferida, descobre que a fonte que o cliente insistiu em usar do projeto gráfico tem problemas de licenciamento e não embute no PDF de jeito nenhum.
Portanto, é garantido que a Pré-Impressão da gráfica vai reclamar e com razão, pois o RIP não vai conseguir gerar as imagens das chapas ou vai trocar por outras fontes.
Você respira fundo, olha pro relógio, olha pro monitor.... e pensa: "Bora fazer uma gambiarra!". E lá no fundo do cérebro começa a tocar a música-tema do seriado “MacGyver - Profissão Perigo”, sucesso da década de 80 (canção Tom Sawyer da banda canadense Rush).
Entre tantas gambiarras possíveis, nosso herói escolhe a dedo a mais prática: converter os textos em curva (recurso Create Outlines) diretamente no arquivo de InDesign.
Gera o PDF, confere se aquela fonte sumiu mesmo da aba Fonts das propriedades do PDF e já despacha o arquivo pra gráfica. É o final dessa história? Se tiver muita sorte, sim. Mas existem diversos cenários possíveis e indesejados que trataremos mais adiante nesse texto.
Procedimentos-padrão ou exceções para situações de desespero?
Vamos ser honestos aqui. Ninguém acorda de manhã pensando: "Hoje vou ignorar todos os procedimentos recomendáveis que aprendi em anos de profissão". A necessidade de usar uma gambiarra nasce de uma combinação de várias circunstâncias amargas que todo mundo que trabalha no segmento de criação e gráfica, conhece intimamente:
- Prazos apertados
- Pressão para entregas
- Arquivos diagramados sem muito respeito às boas práticas de arte-final
- Os problemas inesperados de última hora
- E a clássica frase: "depois a gente arruma isso" (que ninguém nunca vai arrumar).
O bom profissional é aquele que sabe quando e como quebrar as regras.
Sejamos sinceros: em muitas empresas, a gambiarra não é mais a exceção - ela virou o padrão. E aí a culpa não é só das circunstâncias.
Alternativas, Consequências e Cenários possíveis
É como quando você está na estrada com seu carro, e no painel de instrumentos, a luz de temperatura do motor acende. Você descobre que o radiador está vazando fluido de arrefecimento e aí restam duas alternativas: chamar um guincho (já que não vai encontrar facilmente quem solde o furo do radiador) ou, recorrer à gambiarra de colocar pó de café no radiador (que você consegue em qualquer lanchonete de beira de estrada).
O vazamento para e o problema é solucionado, mas não resolvido. Aquela gambiarra não dura muito e em breve você terá de levar seu carro a uma oficina e sairá bem mais caro do que a alternativa de chamar o guincho lá na estrada, pois o radiador recheado de pó de café terá de ser trocado, assim como todo o sistema de arrefecimento terá de ser limpo.
Mas não precisamos ir muito longe para entender as consequências. Voltando à nossa história do PDF com fontes em curva, os cenários possíveis podem ser bem menos glamourosos do que o 'final feliz' onde dá tudo certo, o cliente recebeu os exemplares impressos e os aprovou: 1- É normal que textos convertidos em curva provoquem uma “engordada” nos caracteres. E o cliente pode reprovar o resultado final. 2- Textos convertidos em curva se tornam desenhos vetoriais com nós. Em se tratando de fontes serifadas, a quantidade de nós é muito maior. Uma única linha com palavras pode atingir facilmente a somatória de centenas de nós. Uma página de texto pode gerar muitos milhares. E como se trata de um miolo de um livro com várias páginas... O problema está na capacidade dos RIPs de lidarem com tantos nós para no fim, gerar uma imagem que será enviada para gravar as chapas ou para impressoras laser e/ou inkjet. RIPs mais novos têm capacidade para lidar com muito mais nós do que RIPs antigos. Mas a boa prática sugere não mais que 5.000 nós por página. Um RIP, por exemplo, pode se recusar a processar as páginas, ou pior: processar apenas uma parte. 3- Não é possível reverter o processo de conversão em curva. Na pressa de gerar o PDF e enviar para a gráfica, o diagramador do miolo, depois de terminar, simplesmente salvou o arquivo de InDesign e o fechou. Ele não tinha cópia de segurança, nem becapes com o arquivo de InDesign com o texto editável. 4- Alterações de última hora. Mesmo que o cliente tenha aprovado a versão final, é comum que ele ainda peça alterações nos textos, por exemplo. Neste caso, não existe maneira fácil de editar os textos, já que agora são desenhos com nós. E, como dito no cenário anterior, não dá pra converter em textos editáveis novamente e não existe uma versão do arquivo de InDesign sem que tenha sido usado o comando Create Outline. O jeito é rediagramar a(s) página(s) com emenda(s) ou fazer “past-up digital” (alguém aí se lembra das tiras de LetraSet?).
**OUTROS CRIMES AMBIENTAIS GRÁFICOS **
Parte caiu em desuso, mas a maioria ainda segue muito popular.
**Tinta offset com amido de milho **
Sabe a Maizena que está lá no armário da sua cozinha? Pois é. Ela já salvou mais tiragens de offset do que você imagina - e provavelmente estragou outras tantas também, além de danificar muitas impressoras offset também. Essa é uma gambiarra “clássica” e muito polêmica da velha guarda: misturar amido de milho na tinta. Era uma gambiarra que resolvia alguns problemas, especialmente antes da popularização de aditivos químicos específicos.
Se a tinta estivesse muito "pegajosa" (com tack alto), ela poderia arrancar fibras do papel (picking) ou dificultar a sua transferência da blanqueta. O amido ajudava a "quebrar" essa liga. Em outras aplicações, o amido podia ser usado para tirar o brilho excessivo de uma tinta, dando um acabamento mais fosco ao impresso. Os efeitos colaterais dessa prática são que o amido de milho aumenta a abrasividade, desgastando precocemente as chapas e a rolaria da impressora, se acumulava indevidamente nas blanquetas o que resultava em impressões com falhas e reduzia a vida útil do sistema de entintagem.
**Engomar chapas com gelatina de limão **
Em tempos de gravação convencional de chapas e que era mais comum e barato guardar conjuntos de chapas que eventualmente seriam reutilizadas em futuras novas tiragens, do que gravar outras quando necessário, a prática era aplicar uma emulsão.
O objetivo era protege-las e preservar as áreas de grafia (que atraem tinta e repelem água) e contra-grafismo (que atraem água e repelem tinta), proteger contra riscos e da oxidação natural.
Na falta de goma arábica, o substituto escolhido por muitas empresas era a gelatina de sabor limão (sim, aquela de sobremesa).
A gelatina é um colóide. Ao secar sobre a chapa, ela forma uma película protetora fina e uniforme, muito parecida com a película da goma arábica. O açúcar da mistura também ajudava a criar essa barreira física contra o oxigênio.
Assim como a goma oficial, a gelatina é facilmente removível com água. Quando o impressor voltava a trabalhar, bastava passar uma esponja úmida e a proteção saía sem deixar resíduos que atrapalhassem a tinta.
Entre as desvantagens do uso da gelatina, além do bolor que poderia aparecer, o principal problema eram as formigas e ratos que eram atraídos. Reza a lenda que 9 entre 10 impressores preferiam a gelatina fabricada pela Royal, pois oferecia a concentração balanceada entre o ácido e o açúcar, e, portanto, a melhor proteção sem agredir as chapas.
Hoje em dia, essa prática se tornou mais rara, pois as chapas térmicas e digitais (gravadas com platesetters) são muito mais baratas e rápidas de se gravar e as gomas sintéticas de alto desempenho são muito mais estáveis (e menos apetitosas para as formigas).
Impressos um pouco menores
Deveria ser de conhecimento amplo de todos os envolvidos na produção gráfica a importância de se estender em pelo menos 3 mm as áreas com preenchimento de um projeto, que será sangrado.
O pessoal de criação com frequência não possui essa informação, se esquece disso, não se importa ou acredita que é obrigação da equipe da gráfica resolver esta e outras questões.
Ocorre que guilhotinas não são equipamentos de alta precisão e podem sofrer oscilações da lâmina ou do papel de frações de milímetro. Por isso, os impressos podem ficar com um filete branco medonho nas bordas, dando um aspecto de desleixo e erro de produção.
O problema de ausência de sangria faz parte há décadas dos cinco maiores problemas que estouram na Pré-Impressão e faz com que equipes tenham de prestar muita atenção neste item nos arquivos dos clientes e, corrigir ou recusar os arquivos.
Mas e se isso passou despercebido pelos funcionários da Pré-Impressão? E se os impressores não perceberam e rodaram mesmo assim? O que fazer com 10.000 folhetos A5 sem sangria aplicada, já impressos, esperando apenas o refile?
Nesse momento existem duas alternativas: ou os impressos viram aparas, sendo necessário ajustar arquivos, refazer chapas, gastar mais insumos e tempo de impressão para produzi-los corretamente, ou, o que é mais comum, pedir ao operador da guilhotina dar um refile com 1 mm, no máximo 2 mm em cada um dos lados, o que vai transformar o formato final de 148 X 210 mm em 144 X 206 mm. Ou seja, um pouco menor do que o orçado. E cá entre nós: quantas gráficas contam com a falta de réguas nos clientes? Mas se ele perceber, pode querer devolver o trabalho.
**Outras gambiarras **
E você, leitor, quais são seus “procedimentos alternativos criativos”? Aqueles que salvam prazos, mas que não revela para os clientes nem sob tortura! Comente abaixo quais são as suas gambiarras favoritas e, se precisar de sigilo profissional, use a tática de “... um primo meu que trabalha no ramo tinha uma gambiarra sinistra ....”
Abração e até os próximos artigos!